Eu tinha mania de balançar os cabelos com força de um lado para o outro. Era pra rearrumar a franja, mas ao invés de simplesmente coloca-las atrás da orelha de forma sutil, eu balançava o cabelo até a franja sair do meu olho, como se a violência dos meus fios pudesse reorganizar o mundo a minha volta.
Repito o gesto. Ele comenta que há muito tempo não me vê fazendo isso, que gostava quando eu fazia. Eu acho graça, sempre gostei dos elogios sutis, quando alguém fala algo de bom sobre a sua beleza menos óbvia, sobre algo que você nem sabe que tem. Quando é assim é mais bonito, e me surpreendi em relação ao que ele percebia em mim, da ternura de gostar quando eu balançava violentamente o cabelo, ou quando simplesmente soprava a franja pra cima.
A primeira vez que me apaixonei tinha oito anos. Eu tenho uma pinta minúscula na boca, uma pinta que só eu vejo, dentro da boca, não ao redor, não em cima, nada charmoso e gritante, mas definitivamente uma manchinha ali deitada, que por muito tempo foi a parte de mim que eu mais gostava.
Estávamos sentados lado a lado, eu e ele, e ele comentou da minha pinta na boca. Perguntou se eu sabia que ela existia. Naquele dia, meu afeto por aquele garoto foi além das infindáveis partidas de bafo no chão da escola. A gente compartilhava um segredo, ele via uma coisa que ninguém mais via. E eu me apaixonei assim.
Ontem, quando ele me viu balançar o cabelo de novo, disse que estava com saudade de ver. Disse que quando eu balançava os fios, eu reorganizava o mundo a minha volta.
Não existe nada para colocar no lugar, eu disse.
Até o caos está aonde deve.
Você está aqui, agora nada precisa ser mudado.
Thursday, August 25, 2011
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4 comments:
É nesses detalhes que mora toda a poesia.
Lindo isso,me fez suspirar !
As pequenas e imperceptíveis coisas... Como o momento em que nos apaixonamos por alguém. Lindo o teu texto!!!
Lembro-me de você em muitos momentos. Mas quando estou em frente ao computador me esqueço de acessar seu blog. E aí lembro, venho aqui e leio textos como este. O que eu queria era todos os teus textos no papel, num livro para que eu pudesse folheá-los, ler tudo, guardar, emprestar pra alguém...
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