Há alguns anos atrás eu perambulava por um bairro que englobava todo tipo de gente. Inclusive a mim. E de madrugada quando eu saia de casa eu encontrava as putas, os pombos e os solitários e sentávamos na mesma banca, e porque eu fumava cigarros e nunca tinha trocados de madrugada, filava um do dono do bar e quando chegava a praia ele já não existia mais.
E eu pertencia ao bairro e a um monte de gente, e me apaixonava por todos eles mesmo que um moço bom me esperasse todo fim de noite. Até que um dia ele não aguentou mais, e eu continuei perambulando pelas ruas, pelos corações alheios e me perdendo entre as artérias de tantos moços, encontrei a mim mesma. Ou pelo menos tudo o que eu gostava.
Meus homens foram minhas referências, meus pais, meus irmãos, meus amigos, meus companheiros. Todos eles. Mesmo os que nunca me amaram.
Tinha um que não dormia comigo. Me recebia em sua casa, abria um vinho, me mostrava uns livros e depois que eu me vestia, pedia com cara de criança para que por favor eu fosse embora. Eu ia. E encontrava o dono de bar na esquina do apartamento dele, que pedia um taxi e me pagava uma cerveja.
E eu não ligava. Bebia uma cerveja, e no dia seguinte voltava, porque se eu era viciada em amor, ninguém se cura do dia para a noite.
Até que um dia eu aquietei, ou porque tatuei uma âncora no quadril, ou porque cruzei os olhos com os olhos marrons de um outro menino que me pegou pela mão e questionou todas as marcas do meu corpo.
Ele veio com toda generosidade do mundo, com um amor que não cabia e mesmo assim eu guardava nas caixas e no peito bilhetes banais e noites mal dormidas idealizando namorados que existiam apenas na minha cabeça.
Eu nunca quis abandonar meus homens. Eu nunca consegui abandonar meus homens. Eu nunca quis.
Até que um por um se apaixonou, e obviamente me contaram com empolgação de suas novas moças e de seus cabelos, coxas, dotes e personalidade. Não me pouparam detalhes justamente por eu ser tão presente.
E de repente eu não era mais a judia sensível, flamenguista de alma e escritora chinfrim que existia no mundo. No mundo deles, e doeu, e obviamente passou.
Passou quando um dia o garoto de olhos cor de árvore começou a dormir na minha casa com frequência, e na rua pegava minha mão mesmo que eu me assustasse, e um dia disse que me amava, e me apertando por trás em uma viagem para serra, disse que queria se casar comigo.
E aí o cara que eu amava quis se casar comigo.
Não casamos, mas dividimos um teto gelado, um gato criança e problemas de gente normal. E eu evito questionar se o garoto ainda tem em seu passado o seu catálogo amoroso de namoradas imaginárias, mas eu prefiro acreditar que não, pois os meus amores platônicos já me causaram estragos demais.
E como eu me livrei deles? É uma pergunta interessante.
Eu me livrei do resto quando percebi que só queria nesse mundo ser a judia sensível, flamenguista de alma e escritora chinfrim de um homem só. Justamente do homem que me pegou pela mão e dividiu sua vida comigo.
Eu quis o homem que me quis de volta. E nesse dia eu deixei para trás todos os meus fantasmas.
Wednesday, September 14, 2011
Subscribe to:
Post Comments (Atom)
13 comments:
Lindo post! Queria mandar ára um amigo, mas nao tem como copiar!
Se você quiser eu te mando por e-mail :)
Consegui pelo método mais moderno: copiar o link rs.
Acho que esse é a única característica que procuro em um homem - me querer de volta. Depois de cada briga, de cada semana difícil, sempre me querer de volta.
Que bom Marcela :) Qualquer coisa é só falar.
E Maria, acho que no fundo isso é o que todas nós queremos...
Que eles continuem nos querendo. E que a gente continue querendo também, claro!
faço das palavras da Marcela as minhas: lindo post!
pensando tanto sobre isto hj, leio seu post... espero um dia conseguir matar meus fantasmas também, mas é difícil (às vezes precisamos deles)... sometimes kill is love!
adorei o texto, para variar...
Parecia interessante até, o post. Até o momento em que eu tentei descer a barra de rolagem pelo teclado e não consegui, pois sei lá por que diabos a dona do blog decidiu desabilitar a opção. Imagino que as ideias devam ser muito geniais e rola uma vontade de não querer que ninguém copie. O fato é que se elas forem geniais mesmo e alguém estiver mesmo disposto a copiar, fará isso de qualquer forma. Basta acessar pelo Iphone, só para dar um exemplo. Qual a motivação então de deixar essa opção irritantíssima de teclado desativado, hein?
É uma atitude tão pequena, mas que comporta um nível tão alto de rídiculo que eu peguei birrinha.
Ele não me quis de volta.
E ainda não encontrei moço algum com olhos cor de árvore...
anonymous (me lembra tempos de chat, icq e weblogger), há alguns anos atrás numa sala estéril de uma produtora carioca, quando ninguém tinha iphone e nem sei se ele já tinha sido criado, minha querida amiga paula enfrentava a chatíssima situação da cópia, e não era apenas de um texto, mas do blog inteiro. e eu, com meu beabá de internet achei um código pra impedir a cópia, pq de nada adiantaram pedidos e apelos.
sei lá, entrei aqui pra comentar o texto e acabei comentando o seu comentário. depois eu volto e comento o texto, que agora me fugiu...
Depois de sete anos de indecisões e muita paixão, de deixar ir por uma ou duas, ou três semanas, ou alguns meses ou ainda um ano como se tivéssimos um acordo de só estar distante fisicamente. Então uma semana eu ví q ele queria ir, disse pra ele ir e qd ele foi eu tive a certeza deq n voltaria mais... tão certa q fui invadida por uma calmaria. Ele disse: Sei que vou amar de novo, mas nunca como amo você... nunca vou deixar de amar você. E eu pensei - "nunca vou amar novamente". Conheci outras pessoas, outros lugares, outros ritmos e achei que estava descobrindo a vida e que "aquilo" de antes não era forte como eu achava q sentia... 14 anos passaram...13 anos eu descubro q ele "me acompanha", sabe das minhas mudanças, das vitórias , das derrotas, dos planos. Sei q ele ama a mim TB, sei q o amei (eu acho), mas sei q não amei mais ninguém e ninguém chegou.
Anônima querida, esse texto fala de homens que matamos, ou que nos matam primeiro. Acredito no amor que chega e acolhe com um sentimento inédito, mas acredito em amores paralelos que duram a vida inteira. Eles apenas se transformam em outra coisa, mas continuam lá. E nisso existe beleza, pode apostar :)
paulinha, tb acredito mais ou menos assim.... obrigada pelas palavras, acalma um pouco o coração confuso!:)
Post a Comment