Monday, September 26, 2011

Você precisa entender.

Cinco da tarde e eu me movimento pela sala com as rodas da minha cadeira de trabalho em busca do feixe de sol que entra cortando meu coração de um lado a outro, que passa pelos três caras que sentam ao meu lado, que arde em meus olhos. Paro um segundo e escuto uma música em homenagem ao sol que ousa chegar até aqui. Mas ninguém parece ver, só eu.
Escrevo porque é a única solução possível. Escrevo e ele nem lê mais meus textos, e ontem percebi que ele não lê mais a mim. Ele decora letras e recibos com sua memória de elefante, enquanto eu não lembro de nada que seja relevante, apenas das dores documentadas nas folhas e nos beijos apaixonados que ficaram presos no verão que passou.
“Se você fosse para uma ilha deserta com alguém que não fosse ele, quem você levaria?” Penso que talvez ele me deixe, que talvez eu não aguente, e me seguro na única possibilidade do mundo, a de que ele vai comigo por onde eu for. Mesmo que talvez ele não queira mais.
Quando você sabe que um amor acabou? E quando o amor é fértil, e te rendeu inúmeros meses, e anos de felicidade plena e você ainda o quer mas ele te expulsou de casa mesmo assim?
Eu penso em outros, eu penso com outros, e questiono se os outros pensam em mim também.
Somos tão diferentes meu bem, e ainda assim assustadoramente parecidos.
Você vê?
Por enquanto eu estou cega com o feixe de luz que procuro como quem rasteja, e fecho os olhos de frente para a janela e sinto o pequeno grão amarelo tomar o meu rosto.
E não penso em mais nada. Não faço mais profecias em relação ao nosso futuro, não ouso te dizer o quanto me falta sabendo o quanto você tem agora. O que dói é a falta de espaço. É se sentir esmagada em sua própria casa, em seu próprio peito, em seus sonhos eróticos com pessoas estranhas, e o diálogo de sempre: Vai passar querida, você precisa entender.
Você precisa entender.
Você.

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