Acorda, medita, aperta o botão do café enquanto liga o gás, diminui o barulho dos passos ao entrar no quarto, pega a toalha, toma banho, tira o café, pega o jornal, dá bom dia enquanto o outro reclama do sono que sobra. Tenta tirar as roupas do varal enquanto faz carinho no gato com o pé. Desce 20 minutos, a bolsa pesada com frutas para espantar a anemia, questiona as frutas, a vida, a ladeira, a falta de grana pra pegar vários ônibus, e agradece a ladeira por ser ela o único exercício físico que faz na vida. Dobra a esquina, passa pela clínica de doentes psiquiátricos, dá tchau para aquele senhor de rosto vermelho que sacode as mãos rapidamente toda vez que te vê e sente uma nostalgia acelerada pelo dia que não o encontrar mais lá. Chega ao ponto, entra no ônibus que com um solavanco te joga para o vidro, machuca o braço, mas diz que não, senta e olha os dois buracos no antebraço, e questiona se as pessoas ao lado estão pensando em heroína ou apenas uma veia pulsada no lugar errado pelo nervosismo que ela sentiu, e um outro buraco de brinde por não se comportar durante o exame. Duas marcas em cada braço. Tem vontade de olhar para o vizinho de banco e dizer que tá se livrando do vicio, mas é moralista demais para brincar com coisa séria. Chega ao trabalho ainda nervosa, mostra os buracos, a mancha roxa no braço e diz que agora espera a bigorna cair na cabeça. Senta, toma as cinco gotinhas, mas acredita que ainda assim o coração acelerado pela ansiedade e os sustos vão ser fantasmas durante o dia. Mas tem fé, torce para que não aconteça. Não vai acontecer.
Senta em sua cadeira e ignorando o que está acontecendo a sua volta, faz a única coisa possível, o único acalento, o que as cinco gotinhas não fazem, o que é preciso fazer.
Abre uma página em branco, prepara os dedos, e escreve.
Friday, October 28, 2011
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3 comments:
fodão esse!
"prepara os dedos e escreve"... talvez os dias façam mais sentido assim. talvez.
<3
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