Friday, October 14, 2011

Felicidade

Eu já perdi dinheiro, amigos, pessoas queridas e um grande amor. Eu perco todo dia um pouco da casca, perco a paciência, a fome, o medo e a saudade que não me serve mais.
Eu me angustio, e ontem um moço disse que ao contrário da personagem do livro que eu pareço, sou triste, e discordo. O que me sobra é angustia.
Culpa da geração que já nasce querendo tudo, esperando que o mundo se abra como uma caixa, que ninguém morra, que se ganhe dinheiro antes dos 30 e que nessa época, saturno seja usado em forma de anel e um amor já esteja em casa no fim do dia.
Eu acreditei, e ainda acredito, que tenho o dever de ser feliz. Aliás, que ser feliz é meu direito quando na verdade o mundo me diz que não é.
Eu ainda preciso lutar contra o sono, os minutos que me separam do ponto de ônibus, o dinheiro que não me sobra no fim do mês, as contas, o tédio, as palavras sendo guardadas quando querem tomar o mundo. A minha vida não é diferente da de ninguém e eu sou igual a cada um da minha geração que veio com esse pacto com a felicidade estampado na testa. Só é feliz quem quer, eu finalmente descobri. Só é feliz quem tem o dom de correr atrás do que se quer, porque por mais que a gente acredite no contrário, o portador dos nossos sonhos não vai abrir nossa porta durante um domingo de sol.
Felicidade é pra quem é forte, pra quem não questiona a razão dela ter vindo, pra quem não tem medo. Felicidade é pra quem tem coragem de ser inteiro, e não sente falta de ser metade.
Eu não sou triste, ao contrário do que o moço disse. Eu só tenho essa angústia no peito, isso que acontece agora, um pulsar diferente, o ombro que cai, um nó na garganta e a vontade de fechar os olhos. Eu viro para o lado e pergunto pra ele se ás vezes o coração aperta, e ele diz que não. Que ele fica mal humorado, mas que é só isso, e eu julgo que essa deve ser a forma que os homens encontram de se angustiar.
Minha mãe diz que é normal que ela sente sempre, então espero a angústia passar e enquanto ela se estende, eu escrevo.
Foi assim que eu entendi que escrever ia além do gosto. Meu instinto, que não é dom, mora em um lugar entre a garganta e o estômago e quando pulsa, move meus dedos em direção ao papel.
Eu choro, eu fico triste, eu me angustio, eu pergunto se passa, se mais alguém se sente assim, e depois me comprometo a ser feliz. Não porque eu mereça, mas sim porque é a única escolha possível.

7 comments:

Bruno Batiston said...

Incrível.

Claudia Castro said...

Se vc escreve,com a mesma facilidade com a que a gente lê seus textos ...isso só tem um nome > DOM

laura said...

Dom de Deus.Perfeito.

Thaís Delgado said...

Paulinha, que coisa linda! Chorey!
Parabéns!!!
Thei

Paulo Henrique Motta said...

"Felicidade é pra quem tem coragem de ser inteiro, e não sente falta de ser metade."

foda, Paulinha!!!

abs do Paulinho

Patricia Thompson said...

Resolvi compartilhar um aprendizado meu recente:

Me disseram uma vez que angustia é ótima se for vista como uma força produtiva, para mudar o q não está bom. Ao mesmo tempo, é perigosa quando se torna uma energia que te estagna, deprime. A diferença é se comprometer a ser feliz, batalhar custe o que custar.

DxSxA said...

uma das pedrinhas cósmicas pra ser feliz é deixar pra lá.
vamos deixar pra lá juntas?

hoje de manhã um amigo querido que dormiu lá em casa disse que, na astrolgia que ele estuda, da antiguidade, capricórnio é força saturnina encolhida, noturna, e aquário é força saturnina diurna. saturno rege esses dois signos. ou seja, eu sou super-saturno, porque sou toda aquário além do meu sol.
você também é?


lóv