Me assustava, me assustava muito. Felicidade vinha, colossal, enchia o peito e logo depois eu me sentava de perninhas cruzadas pensando até quando ela ia durar. Felicidade dura? Felicidade plena? Plana? Pro resto da vida? Não. Eu acredito em MOMENTOS felizes, eu dizia.
Até que um dia em uma das minhas crises de “escritora romântica do século 18 que morre de tuberculose” ele disse: Dá pra ser ainda mais feliz, babe.
E eu estava sendo, muito, muito feliz, e acreditei no que ele me dizia porque nunca ia ousar questionar esse cara. Eu estava sendo feliz, eu era feliz, eu sou feliz e ponto.
Até que os dias foram passando e o amor virou cotidiano, e cotidiano é delicioso, é quando ele grita da cozinha que o café está pronto, é quando você vê casais apaixonados passeando e tem certeza de que tudo o que eles ainda querem você já tem. Mas você foi idiota e não percebeu o quanto a vida era generosa por te dar tanta coisa, e fechou os olhos e os ouvidos enquanto reclamava do corpo, da grana, do tempo, da falta, do trabalho, da literatura, do mundo.
E assim foi enchendo os ouvidos do seu belo príncipe com enxurradas de maledições sobre tudo quanto é coisa, até que se fez de louca e declarou: Eu tenho inveja das pessoas que se beijam na pista de dança.
Um champanhe a mais, outro é demais. E ele claro, gritou mais alto do que eu.
Naquele momento o que eu não entendia é que jogava na cara dele minha falsa falta de felicidade, meus desejos invisíveis, e queria mais, desejava mais, sendo que o amor era a medida certa pra preencher meu mundo. E só quando ele foi embora batendo a porta na minha cara, não sem antes me deixar um bilhete, é que eu entendi que se ele não voltasse mais, ai sim, eu seria finalmente infeliz.
Mulher quando sofre por amor sofre físico. A maquiagem da festa escorria pela alça do vestido enquanto ela me jogava uma carta de tarot e afagava meus cabelos com seus dedos frios, tatuados, caprinos, e cheio de amor. E como um mantra me dizia, ele vai voltar, ele vai voltar, mas olha, é a carta do Imperador, é hora de tomar conta da própria vida, de pegar seus problemas e resolver, de se colocar acima das frustrações, de tomar o controle da sua própria vida.
E eu tomei. Tomei o controle com coragem e levei o que sobrou de mim para o nosso apartamento enorme com cheiro de morte.
Andei pela casa horas e horas, e quando acordei, encontrei meu amor dormindo no sofá.
Não cedeu a mim e aos meus apelos e só foi me encontrar no dia seguinte, quando me informou que tinha café na cozinha (e meus olhos encheram de água pelo cheiro e pela generosidade do café.)
Olha,
Eu queria te dizer que eu precisei ter a pior noite da minha vida para entender.
Eu não quero ser a romântica que morre de tuberculose, eu não quero mais as gastrites, as insatisfações, as reclamações constantes, a cobrança que eu te faço por esse amor enorme que você me dá. Eu quero ser mais independente, eu vou! Eu vou ser mais inteira, mais completa, mais corajosa, mais disciplinada, e eu não faço nada disso por você. Eu posso viver sem você, acontece que eu não quero. Eu quero uma vida inteira ao seu lado até ter tourette e falar absurdos, quero domingos sonolentos, quero discutir porque não quero fazer nada além de te olhar, quero outro gato pra aumentar a família, quero gerar mais livros que sejam feitos a partir do amor que você me dá, quero ser mais leve, levar a vida numa boa, não reclamar dos míseros contos que sobram na minha conta, e muito menos que a vida é difícil.
Meu Deus, meu bem, como é que a vida pode ser difícil se eu durmo e acordo ao seu lado todos os dias?
Eu quero seus segundos, minutos, eu quero as horas que nos restam, eu quero dizer todos os dias o quanto eu sou grata pela vida, pelo amor, pela refeição quente no fim de semana, pelo café, pelos beijos apaixonados e pela compreensão de um amante que é melhor amigo, e por um amor que eu nem sabia que era possível existir.
Eu aprendi, escuta, que preciso mudar por mim, e que sim, dá pra ser mais feliz.
Dá pra ser ainda mais feliz. Dá pra ser.
*Para Duda.
Thursday, November 10, 2011
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2 comments:
Incrível!
você agora fez o cotidiano ficar tão atraente, e lindo, e romântico...
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