Saturday, January 21, 2012

No meio do caminho.

Chego à casa fatigada. Chego depois dele. Chego com a cabeça pesada, chego com o coração batendo forte, chego.
No meio da mesa tinha um presente. Tinha uma caneca dentro do embrulho. Escrito na louça “tinha uma pedra”, tinha uma pedra no meio do caminho.
Me lembro destes mesmos dias do Janeiro passado. Ele estava fora trabalhando nos fins de semana e eu tinha começado a tomar os remédios. Tinha um show, e elas iam. Eu deveria ir, ela disse, deveria ir bonita e espantando a tristeza. Chorei de medinho alguns minutos antes de subir e me arrumar, elas estariam me esperando na esquina, as duas, e assim, entraram uma de cada lado, ao meu lado, e me escoltaram até o show.
No caminho eu quis avisar que naqueles dias eu não estava muito bem. “Síndrome do pânico” ele disse, e eu achava que precisava contar para o mundo inteiro já que tinha certeza que eu tinha virado um E.T e que todo mundo perceberia que eu estava diferente.
Elas não notaram, eu não estava diferente, eu estava com medo, mas o medo passou a medida que uma puxou meus braços ensaiando uma coreografia mais avançada e a outra me dava goles de água e me contava sobre as pessoas que estavam ali. E assim rimos, muito, a noite inteira, e terminamos a noite comprando batatas fritas baratas em um posto de gasolina no Jardim Botânico.
Aquele foi o marco zero para o meu processo de cura, e talvez elas não saibam disso até hoje. Talvez também não saibam que neste mesmo janeiro, eu precisei de uma dose e um respiro a mais para ter forças para lidar com um cotidiano que voltou a me amedrontar. Elas não sabem que eu tive as mesmas palpitações e o medinho boboca de quem duvida por um segundo de si mesmo, eu não contei, eu não quis preocupar, a única coisa que elas sabem é da escrita que volta a pulsar em meus dedos e urge por um espaço maior em minha vida.
E foi o suficiente para que numa noite de sábado, após voltar para casa com questionamentos de janeiro passado, elas se fizessem presentes através de um presente.
Cheguei a casa e tinha uma caneca. Nela os versos que eu tatuaria no peito para nunca mais esquecer. Na caneca tinha Drummond e uma pedra no meio do caminho, e o amor das minhas duas amigas que me fizeram ter certeza de que meus pulos são maiores do que as minhas pedras, e que mesmo elas, as pedras, se transformarão em palavras.
Minhas santas palavras.

Para Ana T. E Renata Grimberg.

1 comments:

... said...

amy, que coisa mais linda.