Odeio ameaça.
Odiava que olhassem meus cadernos quando eu era pequena. A professora via minha letra horrível, reclamava do excesso dos meus textos, e tinha uma que cometia o absurdo de olhar as unhas dos pés e das mãos de cada criança. Nos disciplinava com apitos em pleno início dos anos 90 na cidade do interior.
E eu tinha a letra horrível, provavelmente as unhas das mãos chafurdadas de terra, e odiava o barulho que fazia o apito.
Uma vez cai na besteira de dizer que eu tinha medo de tudo. Hoje mesmo ele bateu a porta dizendo: “Precisamos conversar”.
Olho minha letra na agenda e limpo os cantos da unha. O que ele quer ver são minhas ideias, ainda o excesso das minhas palavras, o valor do meu contracheque, as batidas do meu coração, meu remédio para ansiedade.
Quer ver se eu acordei mesmo doente (e como acordei) se eu tenho estômago para amar o que não consigo, se mereço as mínimas coisas e se serei corajosa o bastante para tentar alguma coisa.
E então me ameaça, me olha por trás do vidro, quer ver o que eu fiz durante o dia, examina meu pescoço atrás de marcas, minha bolsa atrás de bilhetes para o cinema, e qualquer traço que acuse que eu esteja sendo minimamente feliz.
O cotidiano, cruel que é, procura vestígios de terra, corrige minha letra, reclama da minha doença, esconde os meus remédios e quer que eu cresça sozinha sem depender de ninguém.
Enquanto eu covarde, olho a porta no final do corredor e penso: Ninguém me disse que era proibido correr.
E talvez correr seja o maior ato de coragem.
Friday, January 13, 2012
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1 comments:
como sempre incrível, adorei
bjs
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