Thursday, January 05, 2012

Quebrando as muletas.

Eu nunca tive grana para curar alguma dor fora do país.
Eu até tentei, mas aos 15 anos minha mãe me disse que os problemas iam me acompanhar até a Austrália, e então, aos 17 anos eu fui descobrir problemas na Finlândia.
E eu agradeço por isso até hoje.
Eu sempre quis rodar o mundo, escrever textos em um café em Buenos Aires, fazer uma viagem espiritual com a minha irmã pela terra dos meus avós na Ucrânia, morrer de medo de peixes no Caribe, mas as coisas não são tão fáceis assim.
(Embora Buenos Aires tenha sido resolvido, a Ucrânia ganhará uma sobrinha como companheira de viagem e o Caribe possa esperar)
Ainda assim fui economizando, requebrando de um jeito brasileiro, e consegui entender o povo que eu pertenço em Israel, um amor que acabou em Paris, ruas coloridas de Barcelona e todas estas cidades na Av. Paulista em São Paulo.
Desde pequena a única coisa que eu queria muito era viajar. Ganhar dinheiro para viajar, fazer mestrado para viajar, não ter filhos para viajar, escrever livros para viajar. Mentira, antes de descobrir as Letras eu queria ser jornalista para viajar. Mas a idade veio com a certeza de que a vida não era assim.
Não a minha.
E então eu escrevo. E leio. E atualmente tenho ido para a Índia no meu caminho de ônibus até a Barra. Já fiquei alguns meses morando em Tóquio com Murakami, e da última vez fui para Londres.
Não conheço nenhum destes lugares, não tenho grana para curar minhas dores em outros países, e como minha mãe disse, elas me acompanhariam, embora eu não me preocupe com isso.
As coisas sempre foram um pouco mais difíceis, mas minha fé no tempo é avassaladora.
De todas as coisas concretas que eu conquistei veio a dúvida sobre o que disso tudo perdura.
O amor é frágil, o casamento é pedir desculpas quando não se quer, o trabalho é mais burocrático do que você imaginava quando era criança, dinheiro é necessário, e ninguém vai te apoiar quando você tiver um sonho que realmente importa.
E talvez a graça esteja nisso, na conquista sem muletas, no seu desejo velado de tanta porrada que levou ao verbalizar a vontade.
Eu verbalizo. Tenho feito isso todos os dias, sem apoio, sem documento, sem lei, mas com um passaporte imaginário pronto para me levar para onde eu quero ir.
Sonhar junto é necessário, mas sonhar sozinho é subversivo, e as vezes é a única forma de realizar.
Porque as maiores coisas da sua vida são aquelas que poucas pessoas vão acreditar. Justamente porque é a sua hora de conseguir, de andar sozinha, de carimbar o passaporte mesmo estando junto.
É a minha hora.
E eu não posso mais ouvir que não.

9 comments:

Bruno Batiston said...

Paula, das suas coisas, é uma das mais bonitas que eu já li. O que eu acho mais bonito mesmo nisso de escrever é poder entrar nesses outros países que a gente jamais imaginou que fosse conhecer, porque não estão no mapa mundi: são os países dessas caras bobas e olhos lacrimejantes de quem lê e se identifica tanto nas palavras de um outro, a ponto de se sentirem abraçados por estes estrangeiros, escritores.

Anonymous said...

Mais uma vez adorei! Feliz 2012! um beijo Veronica

gigix kiddo said...

para variar, sempre parece que me entende ;-)...e adoro! meus maiores sonhos de infância sempre foram viajar... este ano depois de tanto esperar fui à Paris, sozinha, e foi um sonho, bem ao meu jeito, só comigo mesma! :-) ainda bem que, quando o sonho é bom, vale a pena esperar e sonhar sozinha!

Luciana Santa Rita said...

Adorei o post! Não tenho dúvida que a maior viagem é dentro de si.
Beijos.
Lu

escrevendoalice said...

O melhor de visitar nos livros antes é chegar lá com a sensação de que o lugar já é seu.

<3

Anonymous said...

adorei,
luv ana luiza

Anonymous said...

"sonho que se sonha só sonho, mas sonho que se sonha junto é realidade" (nem sei se a citação está ipis literis, mas fui convencional e usei as aspas!)enfim, o que quero dizer é que temos a vida já em confluência, minha linda, por isso todas as suas grandes realizações, por eu estar em ausência física, me são as maiores realidades já possíveis! te amo de dentro pra fora e em mim dentro de você! Rodrigo Ségges

Anonymous said...

Paula, te leio há anos e nunca comentei. obrigada por esse texto ( por todos) , e por traduzir tanta coisa em mim. Aqui aprendo a respirar .
Um abraço.
Ana

letrúcia said...

que texto mais cataploft.